Menos José, mais Deus

Há uma tendência pragmática nos estudos bíblicos atuais. Em outras palavras: se algo que foi estudado na Escola Bíblica do domingo não pode ser utilizado na prática da segunda-feira, não serve. O povo tem que aplicar a Palavra na vida cotidiana, isso é o que importa. É o princípio do “cinco passos para…”. É evidente que a relação com Deus deve reger nossa ética diária. Entretanto, tal postura epistemológica nos leva a compreender as Escrituras quase exclusivamente a partir da ação e reação humanas.

Um exemplo clássico do posicionamento pragmático é a história bíblica de José no Egito. Desde criancinha, vejo a longa narrativa de Gênesis contada e recontada da ótica do próprio José: “veja como ele foi persistente, mesmo passando por terríveis adversidades; foi fiel a Deus e Ele o colocou no topo”. O foco do aprendizado é quase de uma auto-ajuda: se você for fiel e ético, Deus o recompensará no final das contas. Isso tudo é, em parte, verdade. Mas tenho cá com meus botões que o texto nos mostra bem mais do que isso. Penso que devemos ver a história de José pelo viés da ação misteriosa e soberana de Deus.

Para isso, precisamos partir do que o profeta Isaías compartilhou: “Verdadeiramente tu és Deus que te escondes, ó Deus e Salvador de Israel” (Is 45.15). Não podemos ver onde e como Deus age. Esse Deus misterioso revelou a Abraão, lá nos primórdios da história bíblica, que abençoaria todos os clãs da terra por meio da sua descendência (Gn 12.1-3; 28.12-14). Ou seja, em todas as narrativas veterotestamentárias há uma perspectiva encoberta de longuíssimo prazo. É sob essa perspectiva que devemos ler também José.

Pra começar, a bênção que Deus daria ao mundo todo veio por uma via bem misteriosa: por meio de uma família pouco exemplar. Jacó, seguindo exemplo de Abraão e de Isaque, tinha preferência descarada por um dos filhos em detrimento dos outros; esse filho preferido gostava de se exibir ao narrar o sonho em que ele claramente aparecia como senhor de todos; e tudo isso provocou o ciúme e ódio dos irmãos que chegaram ao extremo da traição e venderam o rapaz como escravo. Este é o primeiro mistério com o qual nos defrontamos na história de José: a bênção que Deus prometeu teria por canal um pessoal um tanto problemático.

Depois disso, nada melhorou. Apesar de José se manter íntegro, seu destino foi o de alguém esquecido no fundo de uma prisão (Gn 40.23 e 41.1). O pobre rapaz ficou mofando lá durante dois anos. A partir de então, o narrador nos mostra que o Altíssimo revelou ao Faraó, rei de uma nação pagã, o que Ele faria no mundo nos 14 anos seguintes (enviaria 7 anos de fartura seguidos de 7 anos de miséria). Aqui preciso lembrar: não foi José quem teve a revelação; foi o Faraó. José apenas foi chamado para interpretar o que Deus revelara ao rei do Egito. Este é o segundo mistério: Deus não se revela somente aos “vasos santos e consagrados”. Além disso, a mão que dá é a que tira: Ele estava enviando tanto a fartura quanto a fome e o posterior livramento por meio de José (Gn 41.25-36).

José foi colocado no posto de grão-vizir do Egito e casou-se com uma sacerdotisa de um culto idólatra – de quem traria para dentro do povo de Deus duas tribos de matriz egípcia (Manassés e Efraim). A partir de então, reapareceram os irmãos, reunidos pela fome (veja só!). José, possivelmente desconfiado, testou sua honestidade. Para nossa surpresa, Judá se ofereceu para padecer no lugar do irmão mais novo (Gn 44.33-34) numa atitude contrária ao que todos eles fizeram anteriormente. Justamente aqui que aparece aquele que penso ser o terceiro mistério: Deus operara nos irmãos de José uma transformação que o próprio texto bíblico não relatou. Algo aconteceu com eles durante os 17 anos que se passaram e o narrador não se preocupou em explicar. Não há como dar conta da amplitude da ação divina.

Por isso, fica a mensagem que o próprio José percebera ao final daquilo tudo: “Agora, não se aflijam nem se recriminem por terem me vendido para cá, pois foi para salvar vidas que Deus me enviou adiante de vocês. (…) Mas Deus me enviou à frente de vocês para lhes preservar um remanescente nesta terra e para salvar-lhes as vidas com grande livramento” (Gn 45.5,7). Mais adiante, ele afirma: “Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem, para que hoje fosse preservada a vida de muitos” (Gn 50.20).

Notem: ele nunca disse “eu fui fiel, me mantive firme e Deus me recompensou”. O tempo todo, teve a percepção de que havia algo muito maior do que a própria felicidade dele que estava em jogo. Este é o grande mistério que envolve a história:Deus planejara tudo, e usando até mesmo o mal, livrou o Egito, livrou José, livrou sua família e a longo prazo salvou o mundo todo pelo descendente prometido de Abraão, Cristo. Não temos como perceber o bem que Deus fará, nem saber os meios que usará, nem tudo o que está em jogo quando Ele o faz. Por isso, somos chamados a viver na dimensão misteriosa da fé.

Voltando ao propósito inicial desta reflexão: não precisamos dar um sentido absolutamente pragmático a tudo o que estudamos na igreja. Podemos perder mensagens muito profundas e reveladoras ao nos mantermos apenas no aspecto do que “devo ou não fazer em cada circunstância da vida”. Não que isso também não seja importante; mas a teologia serve para alargarmos nossa compreensão da ação soberana de Deus nas nossas vidas para Seus propósitos.

Por isso, gostaria de ver nos estudos bíblicos das nossas igrejas um pouco menos de José, e um bocado a mais de Deus.


Crônica escrita por André Daniel Reinke
Fonte: curiosidadesbiblicas.com.br

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